
Muitos pacientes que recebem o laudo de uma hérnia de disco acreditam que a cirurgia é um caminho inevitável. Segundo o cirurgião de coluna Guilherme Porceban (CRM-SP 169162/ RQE 84726), essa associação automática é um equívoco clínico frequente. Na grande maioria dos casos, o cuidado adequado começa longe do centro cirúrgico e combina manutenção das atividades diárias, fisioterapia e uso de medicamentos.
A posição conversa com a orientação oficial. De acordo com o Ministério da Saúde, os casos de hérnia de disco lombar respondem bem ao tratamento conservador, e a cirurgia só é indicada se esse caminho não funcionar.
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Para Porceban, a conduta médica também não pode se basear exclusivamente no que aparece na ressonância magnética.
“A decisão precisa partir da compatibilidade entre os sintomas relatados pelo paciente, o exame físico neurológico e os exames de imagem. O achado no exame isolado não significa a indicação de cirurgia. A função importa tanto quanto a dor: avaliamos a preservação da força, da sensibilidade e do equilíbrio”, afirma Porceban, que é mestre em cirurgia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Quando a cirurgia realmente é indicada
A intervenção cirúrgica fica reservada para cenários com critérios bem delimitados:
- Falha do tratamento conservador: persistência dos sintomas após período adequado de reabilitação e acompanhamento clínico;
- Compressão neurológica anatômica: quando a lesão no exame corresponde diretamente ao padrão de déficit motor ou funcional do paciente;
- Déficit progressivo: perda gradual de força nos membros afetados.
O cirurgião afirma que a escolha do método cirúrgico é a última etapa de uma tomada de decisão compartilhada, que considera o quadro global de saúde, os riscos e os objetivos de cada paciente.
A literatura médica indica que a operação não é a única saída nem a mais rápida em todos os casos. Uma revisão de estudos publicada na Brazilian Journal of Pain concluiu que a cirurgia é boa opção para quem tem dor debilitante e precisa de alívio rápido, mas, a longo prazo, não supera o tratamento conservador.
Há nuances. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, comparou as duas abordagens em pacientes com dor ciática entre quatro e 12 meses de duração. Quem operou teve redução maior da dor aos seis meses, enquanto na dor ciática aguda os resultados foram equivalentes após 6 a 12 meses.
Já os casos considerados mais graves têm indicação mais clara. Segundo uma revisão da literatura, síndrome da cauda equina e fraqueza muscular moderada ou grave estão entre as indicações absolutas de cirurgia.
O que é hérnia de disco
A hérnia de disco ocorre quando parte do disco intervertebral se desloca ou se projeta, o que pode comprimir ou irritar estruturas neurológicas, como as raízes nervosas, na coluna.
A condição é frequente ao longo da vida, com pico de incidência entre 50 e 60 anos de idade. Estudos apontam que surgem de 5 a 10 novos casos por ano a cada mil adultos. Segundo o Ministério da Saúde, a predisposição genética é a causa mais importante, seguida do envelhecimento, da pouca atividade física e do tabagismo.
Coluna lidera afastamentos e atinge quase 1 em cada 5 adultos
O peso dos problemas de coluna aparece nas estatísticas oficiais. Na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, feita pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, 19% dos adultos relataram dor crônica na coluna: 15,26% dos homens e 20,08% das mulheres, com prevalência maior após os 60 anos. A região Sul tem o maior percentual (23,3%), e o Paraná lidera entre os estados, com 26%.
No mercado de trabalho, o impacto é igualmente expressivo. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2024, a dorsalgia, termo médico para dor na coluna, motivou 205,1 mil afastamentos, e os transtornos dos discos intervertebrais, que incluem a hérnia de disco, geraram 172,4 mil concessões de benefício por incapacidade temporária.
Em 2025, a dorsalgia liderou o ranking pelo terceiro ano consecutivo, com 237.113 benefícios por incapacidade temporária concedidos a trabalhadores formais.
Sintomas cervicais, lombares e sinais de alerta
As manifestações variam conforme o segmento da coluna afetado. No caso da hérnia lombar, o problema costuma provocar irritação da raiz nervosa e desencadear uma dor irradiada que desce pela perna, a clássica ciática.
Já a hérnia cervical frequentemente se manifesta com dor reflexa no braço, formigamento e fraqueza na mão ou no membro superior.
O diagnóstico não depende só de imagem. Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde, radiografia e ressonância magnética são os exames mais usados, mas o histórico clínico e o exame físico também são fundamentais.
Porceban também chama a atenção para os sinais de alerta neurológico, que exigem a busca imediata por atendimento de urgência:
- Perda repentina de controle da bexiga ou do intestino, ou dificuldade aguda para urinar;
- Alteração de sensibilidade na região genital ou perineal;
- Fraqueza muscular progressiva, de instalação rápida, em pernas ou braços.
Se o paciente tiver febre junto com dor na coluna, perda de peso sem explicação ou histórico de câncer, o médico deve ser procurado sem demora.
Por: Felipe Reis – @ofelipereis



